segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Observação de Aves na Lagoa do Coração em Rio Pardo

          Seguindo a ideia de os integrantes do COA Vales saírem uma vez por mês para passarinhar em diferentes locais dos Vales do Rio Taquari e Rio Pardo, realizamos a saída do mês de setembro (no dia 17). Desta vez fomos para o município de Rio Pardo, na fazenda da Lagoa do Coração. Esta fazenda fica nas margens do Rio Jacuí, bem próximo a cidade, e apresenta uma boa diversidade de ambientes que vão desde campos (nativos e não nativos), áreas com matas de galeria próximo ao rio e ainda áreas com lagoas e banhados. Saímos de Lajeado (eu, Astor e Morci) por volta de 5h da manhã e passamos em Santa Cruz do Sul pegar o Samuel, saindo de lá por volta das 6h. O pessoal que veio de Encruzilhada do Sul (Rodrigo e João) saiu cedinho de lá também e nos encontramos todos na saída do asfalto por volta de 6h45min. Então seguimos para a fazenda.
           O dia começou com muita neblina e não tínhamos muita visibilidade. No trajeto do asfalto até a fazenda fomos tentando observar o que aparecia, mas pouca coisa foi possível de se ver. Chegamos na fazenda por volta das 7h10min e fomos muito bem recebidos. O Samuel já havia conversado com os proprietários que haviam autorizado nossa entrada. O caseiro Fabiano nos aguardava, falamos um pouco com ele que nos repassou as coordenadas para podermos aproveitar melhor o local. Então, do portão para dentro já percebemos que a neblina começava a diminuir e a bicharada estava aparecendo com mais facilidade. Logo na entrada escutamos um Cyanoloxia brissonii (azulão), Pitangus sulphuratus (bem te vi) e muitos Turdus amaurochalinus (sabiás poca) e Zenaida auriculata (pombas de bando). Tínhamos uma noção do que nos aguardava no local, devido ao trabalho do Accordi e Barcellos (2006). Estes autores encontraram inúmeras espécies em 66 horas de trabalho de campo realizado nos meses de primavera e verão.
          Seguimos de carro diretamente para a lagoa e durante a estrada fomos observando o que aparecia. Chegando na lagoa a neblina já havia diminuído bastante, mas o tempo ainda se encontrava bastante fechado. Por lá avistamos Xolmis irupero (noivinha), Camptostoma obsoletum (risadinha), Pseudoleistes guirahuro (chopim do brejo), Progne tapera (andorinha do campo), Tachycineta leucorrhoa (andorinha de sobre branco), Molothrus rufoaxillaris (vira bosta picumã) entre outros tantos. Em determinado momento eu e o Samuel escutamos um canto que pensamos se tratar do Crotophaga major (anu coroca), mas não conseguimos gravar e nem confirmar visualmente, pois os indivíduos estavam do outro lado da lagoa. Cabe uma nova investigação por lá.
          Depois de um tempo observando às margens da lagoa, resolvemos seguir para o outro lado, onde faríamos a trilha. Voltamos pelo mesmo caminho mas, quando chegamos na porteira, resolvemos dar uma conferida em uma pequena área com capim nativo. Eu e o Samuel avistamos de longe um bandinho com 5 ou 6 indivíduos e pensamos, inicialmente, que se tratava do Agelasticus thilius (sargento). Resolvemos averiguar mais de perto e percebemos que havíamos confundido com o Pseudoleistes guirahuro (chopim do brejo). Ficamos por ali observando e identificando o que havia. De repente, voou um indivíduo e sentou mais adiante. Pensei, hum? Será? Não pode ser. Questionei o pessoal se haveria a possibilidade de a Cistothorus platensis (corruira do campo) estar por ali. Nãão, acho que não, espaço pequeno para ela. Ficou por isso. Dali um pouco aquele indivíduo volta e mais gente vê e alguns gritaram, EURECAPUTSGRILACACILDA. Era a fulana. Era ela. Realmente era ela. Ali, naquele pequeno espaço com capim nativo para a nossa enorme satisfação. E a euforia tomou conta de todos. Ainda mais que ela fez na nossa frente. Cantou (verifica o vídeo vivente). Dançou. Continuou cantando. Dançou mais um pouco. Voou daqui, depois para ali, e retornou. Cantava e cantava. Realmente um momento único.
Cistothorus platensis (corruíra do campo)
Local onde avistamos a fulana acima.
Selfie da corruíra. Foto do Rodrigo
             Ainda anestesiados com o encontro, seguimos, mas nosso pensamento estava naquele pequeno espaço de terra e no que encontramos ali. Na saída do local ainda avistamos um Geranoaetus albicaudatus (gavião de rabo branco) sobrevoando a área. Então, tocamos de carro por um tanto, até a ponta oeste da lagoa. Deixamos os carros e seguimos a pé. Logo apareceram o Emberizoides herbicola (canário do campo), Thamnophilus caerulescens (choca da mata), Polioptila dumicola (balança rabo de máscara), Aramides ypecaha (saracuruçu) entre outros.

Emberizoides herbicola (canário do campo). Foto do Astor.
           Seguimos para oeste, por um campo limpo margeando uma área alagada com árvores. No decorrer da caminhada avistamos a Elaenia obsucars (tucão), Melanerpes candidus (pica pau branco), Laterallus melanophaius (sanã parda), Chloroceryle americana (martim pescador pequeno), Paroaria capitata (cavalaria), Anhinga anhinga (biguatinga), e mais alguns.
Elaenia obscura (tucão). Foto do Astor

           Chegamos em um determinado ponto e resolvemos descansar um pouco a sombra de uma árvore. De repente vem um som do meio da mata e ninguém soube dizer quem era. Resolvi dar uma volta para tentar descobrir. Entrei no mato e não vi nada. Fiquei mais uns instantes, eis que vejo um Campylorhamphus falcularius (arapaçu de bico torto). O bicho não deu mole para registro neste momento. Avisei o pessoal e foi um alvoroço só, era taquara quebrando para tudo quanto era lado. Dois segundos depois tinha vivente me perguntando onde ele estava, hehehehe. Mais tarde ele deu as caras novamente e permitiu umas boas fotos.
Campylorhamphus falcularius (arapaçu de bico torto)
          Alguns haviam saído a procura do arapaçu mencionado acima, então percebo a presença do um indivíduo com coloração amarronzada, e aviso o Samuel. No entanto, não conseguíamos ver com distinção quem era o fulano. Então, aparece outro indivíduo escuro e tivemos a certeza de quem se tratava. Para a nossa surpresa era um casal de Amaurospiza moesta (negrinho do mato).
Amaurospiza moesta (negrinho do mato)
           Seguimos o baile e começamos a voltar a trilha, ainda avistamos dois indivíduos de Cyanocorax chrysops (gralha picaça), Trogon surucura (surucuá variado), Tigrisoma lineatum (socó boi), Pardirallus nigricans (saracura sanã). Retornamos aos carros e almoçamos.
Método milenar de resfriamento de botas ao sol. Foto do Astor

          Depois do almoço seguimos para a trilha na volta da Lagoa do Coração de fato. Reparei, dentre outras tantas coisas bacanas que me chamaram a atenção neste local, a quantidade de flores que havia nos campos. Sem fazer esforço fui fotografando, além dos passarinhos, as flores que encontrei pelo caminho.

No flagra para registrar as flores da Caliandra tweedii (topete de cardeal), me corrijam se estiver errado. Foto do Morci
Também encontramos umas árvores crescidinhas.
Alguma espécie de figueira. Foto do Samuel

             Na trilha da tarde ainda avistamos Icterus pyrrhopterus (encontro), Turdus albicolis (sabiá coleira), uma fêmea do Pyrocephalus rubinus (príncipe), Myiothlypis leucoblephara (pula pula assobiador), Synallaxis ruficapilla (pichororé), e mais alguns.
Pessoal tentando fotografar o Campylorhamphus falcularius (arapaçu de bico torto) que apareceu novamente. Foto do Astor.
         Andando, já no caminho da volta, encontramos a Chamaeza campanisona (tovaca campainha) dando maior mole cantando feliz da vida.
Chamaeza campanisona (tovaca campainha)
Rodrigo e Astor na espreita da Chamaeza campanisona (tovaca campainha)
          Então, falávamos que na lista de 2006 o Carpornis cucullata (corocochó) aparecia, mas que não tínhamos encontrado ele ainda. Foi falar, que, VOÁLÁ, o canto ecoou nos nossos ouvidos.
Carpornis cucullata (corocochó)
          No retorno para os carros ainda avistamos o Accipiter striatus (gavião miúdo) sobrevoando a área e a Ardea cocoi (garça moura) que passou voando não muito longe. Abaixo uma fotografia dos participantes da saída neste dia épico.
Participantes da observação (da esquerda para a direita) Cleberton (com a camisa da missa segundo os amigos, hehehehe), Samuel, Astor, João, Rodrigo e Morci.
           A fazenda é um lugar muito bacana e propenso para a prática de observação de aves. Registramos 124 espécies diferentes em um único dia, e com neblina na parte da manhã. A lista completa pode ser conferida aqui. Particularmente é meu recorde de quantidade para um dia, afirmando a vocação do local. Cabe um retorno para investigação da possibilidade de encontrarmos o Crotophaga major (anu corroca).
          Dentre todas as espécies observadas, os registros do Amaurospiza moesta (negrinho do mato) e da Cistothorus platensis (corruira do campo) merecem enorme destaque, pois não haviam sido registrados no trabalho mencionado acima e também são de extrema importância para o conhecimento da distribuição destas espécies. Samuel me alertou que o trabalho do Accordi e Barcellos (2006) também não havia registrado a Paroaria capitata (cavalaria). Embora esta espécie possa ser de soltura, muito provável, deve ter população estabelecida na região. No Wikiaves ela apresenta registros no Rio Jacuí e início de seus afluentes.
          A saída foi fantástica, um dia excepcional, daqueles para ficar guardado na caixinha de lembranças incríveis. Além das espécies maravilhosas que apareceram, o que mais me deixou contente foi como elas apareceram. Não sei como chamar, uns dirão que foi destino, uns dirão que foi coincidência, outros dirão que foi mão divina, ainda tens uns que dirão que foi o universo que conspirou a nosso favor. Mas o fato é que foi loco de bueno, do balacobaco, chuchubeleza, enfim, que foi incrível a forma como as coisas aconteceram.
           Cada vez mais eu me convenço de que fazer coisas boas atrai coisas boas. O poeta diria que gentileza gera gentileza. Mas eu vou além, diria que passarinhar atrai os passarinhos, hehehehe.

          Agradecimento especial aos proprietários da Fazenda Lagoa do Coração que permitiram a nossa entrada e estadia.
  
            Obrigado pela companhia amigos, até a próxima.